"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina".

Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente.

Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo.

Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar.

Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria.

Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade.

Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando....

E termina tudo com um ótimo orgasmo!!!

Não seria perfeito?"

Charles Chaplin*

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


Li e achei extremamente exemplar 

SOBERBA CASTIGADA (CRÔNICA)

Quase fui flagrado por um amigo intelectual, quando comprava um cd do Roberto Carlos, em uma loja perto de minha casa. Cheguei a pensar que não tinha jeito quando ele me olhou por cima dos óculos com aqueles ares que a princípio julguei que fôssem de fisco e censura.Seu silêncio parecia dizer algo em torno de "até você, meu amigo? Roberto Carlos? Que coisa mais piegas! Estou pasmo!". É claro que ele diria isso, caso dissesse, com um vocabulário bem mais clássico.
Pus o cd de volta na gôndola promocional e entabulei com ele uma conversa bem previsível para o ambiente. Falamos de música, é claro. E a conversa foi ainda mais previsível, por ser entre dois sujeitos metidos a bestas, de meia idade e cheirando a mofo cultural. Coisa típica de velhos militantes da tropicália e das guerrilhas estudantís dos anos sessenta, não exatamente contra a ditadura, mas contra o a favor. Velhos adeptos do não a qualquer tipo de sim, ou do sim a qualquer tipo de não, sempre ao som dos velhos heróis que fizeram lá sua fama, sua cama e seu cacife, e hoje acham que o Brasil está ótimo.
    – Estou aqui procurando alguma coisa do Chico.
    – É, eu também vim aqui ver se renovo o meu estoque. Parece que saiu uma coleção boa do Chico, algo do Caetano e do Gil – Respondeu solenemente o meu amigo. 
Nosso colóquio desfiou um rosário de Chico, Caetano, Gal, Vandré, Bethânia e outros nomes obrigatórios ao "nível", passeando até pelos novos "ícones" da "música cabeça", sempre evitando o Roberto Carlos e outros de sua linha; quase "laia", se dependesse de nossa expressão de conteúdo nobre. Elogiamos o Lenine, enaltecemos Marisa Monte, analisamos Tom Zé, fizemos ressalvas ao jorge Vercilo, e por aí fomos, como se a loja fosse a nossa casa e nós fôssemos donos absolutos do bom gosto musical.
Despedimo-nos depois de mais de uma hora, e resvalei para um canto meio escondido, sem o produto à mão. Cheguei a levantar suspeitas dos atendentes, pois a loja estava deserta. Só eu e meu amigo estávamos lá, além deles que ficaram se perguntando em silêncio, a julgar pelas expressões entediadas, se não tínhamos mais o que fazer.
Quando percebi que o amigo intelectual se retirou, após um acerto com o balconista, dei mais uns minutos de tolerância ao meu anseio e voltei ao corredor onde o deixara, olhando em volta para me certificar de que nenhum outro "fiscal de inteligência melódica" estava a postos. Feito isto ergui a mão à gôndola e tive uma frustração: O cd de Roberto Carlos não mais estava; aquele era o último exemplar, e meu amigo o arrematara tão logo viu que "me descuidei".
Demétrio Pereira Sena
Retiredo do blog:http://glorinhacastrro.wordpress.com/2009/01/22/soberba-castigada/



Nenhum comentário:

Postar um comentário